Seletividade alimentar no autismo: por que entender o motivo da recusa é tão importante?
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Seu filho recusa muitos alimentos?
Talvez ele aceite apenas algumas opções e rejeite todo o resto. Ou talvez aceite determinado alimento, mas apenas de uma marca, textura, temperatura ou forma de preparo específica.
E quando você tenta oferecer algo diferente, a refeição pode terminar em choro, irritação, negociação ou até mesmo uma grande crise.
Se isso acontece na sua casa, você provavelmente já se perguntou:
“Por que ele não come? O que eu estou fazendo de errado?”
Antes de se culpar, é importante entender uma coisa: a recusa alimentar pode ter diferentes motivos.
Nem sempre é simplesmente “não gostar”
Para algumas crianças autistas, determinadas características dos alimentos podem ser difíceis de tolerar.
A textura pode incomodar. O cheiro pode ser muito intenso. A temperatura pode fazer diferença. A aparência, a cor ou a maneira como o alimento está apresentado também podem influenciar.
Algumas crianças, por exemplo, aceitam alimentos crocantes, mas recusam os mais macios. Outras preferem que os alimentos não se encostem no prato. Há aquelas que aceitam uma determinada marca, mas rejeitam outra, mesmo que o alimento seja muito parecido.
E mudanças também podem ser difíceis.
Se a criança sempre come o mesmo alimento preparado de uma determinada maneira, uma pequena alteração pode fazer com que ela o recuse.
Por isso, quando uma criança diz “não” para um alimento, vale olhar além da recusa e perguntar:
“O que exatamente está sendo difícil para ela?”
Observe o que acontece durante a refeição
Nem toda criança consegue explicar o motivo pelo qual não quer comer.
Em vez de dizer “essa textura me incomoda”, ela pode virar o rosto, cuspir, chorar, afastar o prato ou tentar sair da mesa.
Esses comportamentos podem ser uma forma de comunicar que aquela situação está sendo difícil.
Mas também podem existir outros fatores envolvidos. Algumas crianças podem apresentar dificuldades relacionadas à mastigação ou às habilidades motoras orais. Questões gastrointestinais também precisam ser consideradas quando há sinais que indiquem essa possibilidade.
E, em alguns casos, aspectos sensoriais e comportamentais podem acontecer juntos.
Por isso, observar a criança durante as refeições é tão importante quanto conhecer a lista de alimentos que ela aceita.
Uma alimentação com poucos alimentos merece atenção
Quando o repertório alimentar é muito pequeno, alguns grupos de alimentos podem aparecer pouco ou até ficar completamente ausentes da alimentação.
Isso pode aumentar o risco de inadequações nutricionais.
Mas atenção: isso não significa que toda criança seletiva tenha deficiência de nutrientes.
É preciso olhar para a alimentação daquela criança: o que ela come, com que frequência, quais grupos alimentares estão presentes e quais estão ausentes.
Por isso, uma avaliação não deve considerar apenas o peso ou a quantidade que a criança come. O repertório alimentar e a qualidade da alimentação também precisam ser observados.
E o que os pais podem fazer?
Talvez você já tenha tentado de tudo.
“Só mais uma colher.”
“Experimenta pelo menos.”
“Se você comer a verdura, pode ganhar a sobremesa.”
Ou talvez, depois de tantas refeições difíceis, você tenha começado a preparar somente aquilo que sabe que seu filho vai aceitar.
Isso é compreensível. Quando cada refeição se transforma em uma batalha, é natural querer encontrar uma maneira de torná-la mais tranquila.
Mas, para ajudar de verdade, o primeiro passo é entender o que está por trás da recusa.
Em vez de pensar apenas em como fazer a criança comer determinado alimento, precisamos descobrir quais características estão dificultando essa experiência e quais estratégias podem ajudar a criança a ampliar, gradualmente, suas possibilidades alimentares.
Não existe uma estratégia que funcione da mesma maneira para todas as crianças.
Cada criança precisa de um olhar individualizado
A seletividade alimentar não é igual para todo mundo.
Para uma criança, o principal desafio pode ser a textura. Para outra, pode ser o cheiro. Para outra, a dificuldade pode estar relacionada às mudanças, à forma de apresentação do alimento ou aos comportamentos que acontecem durante as refeições.
Entender a recusa é o primeiro passo para saber como ajudar.
E isso muda a forma como olhamos para a alimentação: em vez de enxergar apenas uma criança que “não quer comer”, passamos a enxergar uma criança que pode estar encontrando dificuldades — e que precisa de estratégias adequadas para superá-las.
Se as refeições têm sido motivo de preocupação, conflito ou ansiedade na sua família, procurar uma avaliação especializada pode ajudar a compreender melhor o que está acontecendo e a construir um caminho possível para ampliar a alimentação da criança, respeitando suas necessidades e seu ritmo.
Na Lumiare, cada criança é avaliada de forma individualizada, porque acreditamos que compreender é o primeiro passo para transformar a relação com a alimentação.
Referência
Esposito, M.; Mirizzi, P.; Fadda, R.; Pirollo, C.; Ricciardi, O.; Mazza, M.; Valenti, M. Food Selectivity in Children with Autism: Guidelines for Assessment and Clinical Interventions. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2023, 20, 5092.