Validade Social na Terapia ABA: Por que ensinar habilidades funcionais é essencial
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Em 1987, a TASH Newsletter publicou um texto chamado “Um Caso para Ensinar Habilidades Funcionais”, que até hoje provoca reflexão entre profissionais e famílias. O texto relata a história de Daryl, um jovem autista de 18 anos que passou toda a vida em escolas especiais, inclusive com professor particular.
Ao longo dos anos, Daryl aprendeu muitas coisas… mas será que eram as coisas certas?
A Carta Completa
Um Caso para Ensinar Habilidades Funcionais
Extraído da TASH Newsletter (dezembro, 1987)
Daryl tinha 18 anos de idade e frequentou escola especial toda a sua vida, incluindo alguns anos com “professor particular”.
Daryl pode agora fazer muitas coisas que não podia fazer antes!
Ele pode colocar 100 pregadores no varal em menos de 10 minutos com 95% de precisão.
Mas ele não coloca moedas na máquina de venda automática.
Ao comando ele pode “tocar” o nariz, ombro, perna, pé, cabelo e ouvido.
Ele ainda está aprendendo punho, tornozelo e quadril.
Mas ele não sabe assoar o nariz quando necessário.
Ele completa as 12 peças do quebra-cabeça Big Bird com 100% de acerto e colore o coelhinho da Páscoa sem sair da linha!
Mas ele prefere música, e ninguém nunca ensinou como usar o rádio ou um aparelho de som.
Ele pode dobrar papel em metades e até mesmo em quatro partes.
Mas ele não sabe dobrar suas roupas.
Ele pode colocar o cubo na caixa, debaixo da caixa, ao lado da caixa e atrás da caixa.
Mas ele não encontra a lixeira do McDonalds e coloca o lixo dentro dela.
Ele pode parear os blocos por cor, até 10 cores diferentes.
Mas ele não consegue separar as roupas brancas das de cor para lavá-las.
Ele canta o ABC e fala nomes com todas as letras do alfabeto quando vê um cartão com letras em caixa alta com 80% de precisão.
Mas ele não sabe dizer qual é o banheiro masculino e o feminino quando vai ao McDonalds.
Ele pode colocar miçangas com cores alternadas e copiar o modelo dos cartões!
Mas ele não sabe dar laço nos sapatos.
Eu acho que ele ainda não está pronto.
O que é validade social?
Na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), validade social é um conceito que se refere à relevância e importância dos objetivos, procedimentos e resultados de uma intervenção para a vida da pessoa (Wolf, 1978).
Isso significa que não basta que a intervenção seja bem estruturada e baseada em ciência: ela precisa ter sentido para o indivíduo, sua família e a sociedade.
Uma meta de ensino com validade social deve:
- Ser funcional – ter utilidade prática no cotidiano da pessoa.
- Promover autonomia – permitir que o indivíduo realize atividades com menos ajuda.
- Ter relevância percebida pela família e pelo próprio indivíduo – fazer sentido para quem participa da intervenção.
- Favorecer a participação social – contribuir para que a pessoa possa interagir e se engajar em diferentes contextos.
Por que habilidades funcionais importam
Habilidades funcionais são aquelas que têm aplicação direta no dia a dia e contribuem para que a pessoa viva de forma mais independente e segura.
Isso inclui, por exemplo:
- Cuidar da higiene pessoal.
- Fazer escolhas e expressar preferências.
- Usar diferentes meios de comunicação (verbais ou não verbais).
- Transitar de forma segura por ambientes públicos.
- Realizar tarefas domésticas simples.
Quando as metas de uma intervenção são distantes da realidade vivida pela pessoa, corre-se o risco de investir tempo e recursos em habilidades que pouco ou nada contribuem para sua qualidade de vida.
Como avaliar se uma meta tem validade social
Segundo Wolf (1978), é fundamental perguntar:
- Essa habilidade será usada com frequência pelo indivíduo?
- Vai aumentar sua independência ou participação social?
- É algo valorizado por ele ou por sua família?
- Pode ser generalizada para diferentes ambientes e situações?
Registrar o progresso e conversar continuamente com a família sobre as metas e prioridades é parte essencial desse processo.
Lições do caso de Daryl
O caso de Daryl não é isolado. Muitas pessoas com deficiência passam anos aprendendo habilidades que, embora impressionantes no papel, não mudam significativamente sua vida prática.
Essa é uma chamada de atenção para todos que participam de processos educativos e terapêuticos: cada minuto é valioso e deve ser investido em habilidades que realmente farão diferença no presente e no futuro.
Conclusão
A validade social nos lembra que o objetivo final de qualquer ensino não é apenas acumular habilidades, mas promover uma vida mais autônoma, digna e satisfatória.
Para isso, é necessário olhar para além de listas de objetivos e pensar no impacto real que cada aprendizado terá no dia a dia do indivíduo.
Referências
- Wolf, M. M. (1978). Social validity: The case for subjective measurement or how applied behavior analysis is finding its heart. Journal of Applied Behavior Analysis, 11(2), 203–214.
- TASH Newsletter (1987). A Case for Teaching Functional Skills.
- Bearss, K., et al. (2018). Parent training for disruptive behavior: the RUBI Autism Network Clinician Manual. Oxford University Press.